13.5.09

IX. Evasão

…vou roubar-te um momento e torná-lo só meu,
porque preciso de me falar…
Não é que o necessite ardentemente, antes porque me propus fazê-lo.
Porque me apetece, de quando em vez, monologar.
Monologar as vozes da cidade que os meus ouvidos me ocultam…
Monologar a amálgama de desejos que nunca senti ou permiti sentir…
Monologar-me como duas metades que se completam e nunca se falam…
Fiz-me de desacordos e assim me insisto subsistir…
Roubei à carne do tempo o meu corpo; à sua inevitável passagem a minha memória…
Do passado esculpi a minha vontade de permanência.
Sou uma perfeita nulidade que caminha de encontro à multidão anónima que me atesta de incapacidade de conseguir ser mais que apenas eu.
Não tenho sonhos e quase não tenho vontades…
Mesmo isto do escrever parte da falta de vontade de me ocupar com qualquer outra coisa…
Vou continuar assim… rumo a nenhures.

13.4.09

VIII. A carta

Estou a olhar para as linhas em branco desta folha há quase uma hora…
A tentar escrever aquilo que ando para te dizer há tantos dias, acabando por morrer num olhar… num sorriso… num suspiro…

As palavras que não encontro para te dizer…
Porquê???
É uma óptima questão.
Segundo os entendidos nas teias da psicologia, devemos procurar as causas dos nossos actos falhados.

Para chegar ao fim há que enfrentar o cerne da questão…
E neste momento… nem Freud me salva…
No entanto seria capaz de encontrar um sem-número de porquês que justificassem o porquê da fuga.

Teorias com base em evidências científicas, escritas por “alguéms” entendidos com nomes pomposos que nem me atreveria a pronunciar… e ao escrevê-los, baptizá-los-ia de novo e nem por isso seriam a justificação perfeita…

Já se passou tanto tempo e, no entanto, parece que foi ontem.
Quando me abraçaste, o mundo parou nesse momento e só o teu coração batia…
Quando fecho os olhos consigo ouvi-lo bater como se fosse agora…
Descobri nesse dia o que é uma vertigem…

Acho que nunca o admiti…
Foi um renascer…
Foi assustador…

Já partilhamos tanta coisa juntos!
Não sei descrever o que é. Fui procurar uma explicação.
Darwin chama-lhe selecção natural.
Freud chama-lhe pulsão.
Fernando Pessoa, um estado d’alma.
Alfred Werner reduzi-lo-ia a uma equação química.
Francis Bacon, domínio e manipulação do real…
De tantas disciplinas, ciências, teorias… em nenhuma consegui encontrar explicação que satisfizesse esta questão que me consome.
Para mim és mais que as partículas que te compõem…

mais que as explicações evolucionistas do planeta e arredores…
mais que a rima de um poema…
Mais… mais… mais… mais… muito mais…
A insanidade no seu estado mais puro.
És a certeza de saber que neste mundo de mesquinhez, nos teus braços tudo se esbate… e sou Feliz.
Sorrio… e contigo… sou Feliz.

Abraça-me… e sei que mesmo que o mundo desabe sobre mim… nos teus braços… serei Feliz.

13.3.09

VII. Recordas-te?

Recordas-te?

O velho quarto…

no desfecho da rua…
a décima terceira morada, envolta em heras: afecto do tempo…
a septuagésima porta encerra o velho quarto…

Recordas-te?

De escarlate tingido…
um salpicado de silenciosos lutos…
o meu reino de volúpia…
o teu reino de concupiscência…

As grandiosas janelas de onde veludos sorvem a luz…
e deixam um rasto de silhuetas dançando a exalação do vento…

O leito…
dossel amimado que deixa cair os seus véus como lágrimas de um rosto sagrado…
O colchão, envolvente algodão…
e o odor almiscarado penetrando a seda sombria dos lençóis…
A magnificente coberta de mil tons rubros que rodopiam à medida que a luz das velas beija o veludo…
O majestoso cadeirão de cauda que se afirma ao canto no seu ar de meretriz distinta…
O lustre que pende no centro do leito na sua falsa debilidade…
…gotas de orvalho…
…adornos que fragmentam a cor num arco-íris âmbar/fogo…
O macio tapete, esplendoroso manto negro que o chão cobre…
silenciar quente de carícia… harmonia sensorial…
O candelabro de velas retorcidas embutidas no metal forjado de surrealismos florais…
as sombras quentes provenientes de pavios que o queimar das horas consumiu...
O velho tocador onde as pérolas e os rubis se perdiam por entre módicos frascos de perfumes, almofadinhas de pó de arroz, batons vermelhos, sombras… e a escova de cabelos de prata fina…
O imponente guarda-fatos… e os espelhos onde nos perdemos tantas vezes entre as brumas de um suspiro…
No seu interior os cabides de lembranças…

Tantas histórias por contar!


Estou à porta do velho quarto…
sob a minha mão a maçaneta em forma de lírio faz-se rodar…
Há uma energia que me suga…
Como se de um transe se tratasse, estou no meio do quarto…
As lembranças! Desmesuradas lembranças!
…escutar o teu felino caminhar …
…sentir os teus dedos na minha pele imprimindo o rasto do desejo…
…saborear a urgência de me teres…
…ouvir os suspiros que lábios deixam escapar,
observando o meu inocente desnudar…
Quantas carícias depuseram no tempo o que em tempos foi!
o que em tempos fomos!

Ouves? Consegues ouvir?

A minha caixa de música…
a minha pequena caixa de música…



…Recordas-te?

17.2.09

VI. The path

Os dias:
As árvores vestiram-se de cinza para homenagear o isolamento.
O som que o vento tinge no ar é como voz minha de desespero intenso.
O whiskey, companheiro nobre, morre no copo, à espera dos meus lábios.
As músicas, de onde pesarosos suspiros são arrancados, tocam sempre à mesma hora.
É a traição e a morte.
Ter vida é viver-se enganado.

As noites:
Não há lembrança, por mais vaga que seja, do traje que a noite veste.
As sombras que se fixam nas ruas, imagino-as as mesmas de sempre.
Os medicamentos, cuidadosamente organizados, desfrutam a simpática espera da minha alma.
As visões fotográficas saltam de caixotes escondidos pelo pó.
É a lembrança e a renúncia.
Viver-se enganado é ser-se feliz novamente.

Sinopse:
As árvores também são noite…
O som do vento cola-se às sombras das ruas…
Os vícios cantam hinos à alma desfeita…
Vejo… Oiço… Sinto…
É o sangue…
O fim é o princípio.

17.1.09

V. momento-memória

[Hoje decidi sentar-me aqui e falar ao papel como se te falasse…
Apenas decidi apetecer-me fazê-lo...]



(…)


Os nossos momentos estão a morrer.
Mesmo os que trago cravados no corpo estão a morrer.
O momento que perfumou o cetim das noites esfumou-se
como uma valsa rodopiando pela corda do tempo.
É como veneno perseguindo sangue… dentro de mim…
Momento-memória… Abrigo da dor última.

“Diz-me adeus para que me vá…
…quero a palavra-fim.”


Os nossos momentos estão a morrer.
Os meus ouvidos deambulam, esgotados, por entre a miscelânea de melodias que aprisionaram o instante preciso daquele beijo… daquele toque… daquele sorriso…
Visualizo ainda uma imagem confusa…
mas já se perdera de todo o sabor, o macio, o brilho…
Morreram...
Todos esses momentos morreram…
A memória-momento-memória escolta o rito de perdição…

As minhas mãos passeiam-se, às escuras, pelo quarto onde enclausurei, amontoados, todos os presentes que não te ofereci. Eram a distância tua ou o orgulhoso e deliberado esquecimento meu que mo não permitiam…
Hoje sou mais uma “coisa” que o esquecimento ali deixou para que o orgulho transformasse em momento-memória que morre.

Guardei num canto de mim pedaços de cartas que não ousei escrever.
Já escassas passagens remanescem …
E que graciosas palavras evitei dizer-te! Tolo!
E essas também morrem…
Morrem como aquele poema estupendo que se rasga e queima num momento de cólera.
Percebo agora… e só agora… que cada verso abraçava um momento.
Quanta ingenuidade!
O suplício de nos ter rasgado e queimado.
A mágoa seguinte pela incapacidade de nos reencontrar nas cinzas.
Foi precisa a morte para compreender o quanto nos queria de volta!
Lembras-te dos nossos primeiros momentos-memória?
São os últimos a morrer.
Era tudo tão perfeito! O início é sempre perfeito!
Suponho que não queiras lembrá-lo.
Eu próprio tento não fazê-lo. Desculpa.
Não tenho mais nada.



… … … … … … …



Espera!
Há um último momento…
…que o meu coração entrega à chuva…
Há uma última memória…
…que desliza pelas paredes do cristal frio…





morreram

13.1.09

IV. Padecimento

Nasci com a sensibilidade de um poeta
Mas sem o dom da escrita
Nasci com a paixão à arte
Mas sem engenho
Nasci um sonho
Sem realidade
Nasci o mundo
Perdida em mim
Nasci para salvar
Sem o poder para o fazer.
E padeço … a cada dia que passa padeço …
Padeço, por nada ser … para além do desapontamento
aos olhos daqueles que me desejaram …
E permaneço …
De máscara posta …
Padeço …
Um sorriso fictício …
Uma falsa esperança …
Padeço …

7.1.09

III. Exaustão

Sinto a inexistência como única verdade incontestável.
Soma de tudo que não chegou a ser.
Tempestade fútil que nos conduz pela treva…

obrigando à ironia da incerteza.
Deitamo-nos lado a lado com a angústia de nada saber.
E a luz porque ansiamos reside lá longe… em lado nenhum.
Tudo é nada.

(…)

Não conheço outra forma de intimidar o desespero senão dissimulando a morte do pensamento.
Esforço-me por encontrar a tolerável sustentação da vida…

e a loucura da realidade trar-me-á de volta o desequilíbrio.
Penso em nada.

(…)

Há a pedra que absorve o tempo anterior a mim…
...posterior a mim.
Há a ponte que se ergue, instável… entre o berço e o sepulcro.
Há a ampulheta dos dias que é chama lambendo cera.
Há o sangue fervido onde dissolvo a essência do que sou.
E de novo… nada.

(…)

Difícil é primar pela razoabilidade quando quebramos a linha
da inexistência só para respirar o ar do mundo.
Difícil é tentar definir emoção ou consciência da emoção
a ponto de a tornar palpável…
ou suportável?!?!?
Difícil é supor-se diferente de si mesmo só para se sentir vivo…
Difícil é perceber que nada leva a nada…

(…)

A verdade…
A verdade é o deslizar contínuo das línguas para dentro de nós.