…vou roubar-te um momento e torná-lo só meu,porque preciso de me falar…
Não é que o necessite ardentemente, antes porque me propus fazê-lo.
Porque me apetece, de quando em vez, monologar.
Monologar as vozes da cidade que os meus ouvidos me ocultam…
Monologar a amálgama de desejos que nunca senti ou permiti sentir…
Monologar-me como duas metades que se completam e nunca se falam…
Fiz-me de desacordos e assim me insisto subsistir…
Roubei à carne do tempo o meu corpo; à sua inevitável passagem a minha memória…
Do passado esculpi a minha vontade de permanência.
Sou uma perfeita nulidade que caminha de encontro à multidão anónima que me atesta de incapacidade de conseguir ser mais que apenas eu.
Não tenho sonhos e quase não tenho vontades…
Mesmo isto do escrever parte da falta de vontade de me ocupar com qualquer outra coisa…
Vou continuar assim… rumo a nenhures.


